Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Os Numeratis e a disseminação sutil do poder




Michel Foucault foi um dos grandes filósofos do século XX, em sua rica obra podemos destacar a preocupação de Foucault com o poder e sua força no campo de aplicação. Para ser mais preciso, no livro História da sexualidade: A vontade de saber é onde Foucault conceitua o poder contemporâneo ou o Biopoder. Como o nome já diz, é caracterizado pelo controle em relação à vida do indivíduo: Natalidade, sexualidade, etc. Mas o que mais me chamou a atenção nessa obra é um termo que o filósofo francês caracteriza o poder contemporâneo: A sutilidade.
Aprecio muito esse ponto de vista foucaultiano, principalmente após ler uma reportagem e um livro sobre a nova ciência de controle: A ciência dos Numeratis.
Como observei no último parágrafo, essa ciência tem como objetivo o controle social nos mais diversos campos (trabalho, Internet, política, consumo, saúde e até no amor). O método consiste em uma elaborada análise da vida do indivíduo, transformada em equações, traçando paralelos e previsões para guiar o comportamento de cada um.
Ilustrarei essa ciência com alguns exemplos:
• Trabalho: A IBM andou bisbilhotando a vida de cerca de 50 mil funcionários, e bem ao pé da letra. Currículos, projetos, anotações em agendas on line, e-mails e até idas ao banheiro foram transformados em gráficos e equações, cujo objetivo é comparar a produtividade a um funcionário virtual. Quem não se adequar aos padrões minuciosos estabelecidos ganhará certamente o olho da rua. E o pior é que diversas empresas mostram interesse no projeto.
• Internet: Sabe aqueles comentários que você deixa em Blogs e Fotologs pela Net? Podem estar na mira de supercomputadores que definem você pelos seus comentários e até pelo seu modo de escrita (o computador identifica naum ao invés de não, pode deduzir que uma pessoa jovem está nos teclados), através dessas técnicas, os numeratis visam descobrir suas opiniões sobre produtos com o fim de oferecer um produto bom e para a pessoa certa.
• Política: Nos EUA, os Numeratis desvendam a vida das pessoas para identificar a identificação partidária, na busca de mais votos. Filiação, bairro, profissão, valores e centenas de dados são computados. Joseph Gotbaum, um dos maiores especialistas na ciência dos números foi o grande responsável pelo marketing da campanha de Barack Obama rumo à presidência.
• Consumo: Através do registro de suas comprar, os mercados analisaram os produtos que mais consome e proporcionará promoções específicas para você.
• Amor – Através de cálculos referentes a hormônios predominantes nas pessoas, as mirabolantes equações proporcionam a combinação com o par perfeito. O MSN paquera já utiliza a tecnologia, faça o teste!
• Saúde – O monitoramento diário levará aos Numeratis todos seus movimentos na tentativa de prever um doença degenerativa, como o mal de Parkinson.
Apesar de ter alguns pontos positivos, como a prevenção de doenças, a ciência dos Numeratis vem salientar a sutilidade que o poder contemporâneo é exercido, somos comparados, calculados e vigiados, como máquinas na busca de um desempenho cada vez mais satisfatório e isso sem saber, ou simplesmente por desejar. O poder ganha um novo status, muito mais sutil que o Biopoder de Foucault, ele chega ao status de um tecnopoder, onde a tecnologia coisifica e padroniza o homem a mercê da ideologia consumista de nossa sociedade. Vivemos a beira da sociedade de controle que profetas como Orwell e Huxley já haviam previsto no passado. Só falta tais tecnologias de controle estarem nas mãos de um governo ditador, ai sim a merda federá de vez!
Como escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente.”

Leituras recomendadas:
Baker,S. Numerati. ARX
Foucault, M. História da sexualidade: A vontade de saber.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Revendo a política de Aristóteles



Caro leitor, você já parou para pensar no que é a política? Aposto que muitos chegam a inevitável conclusão de que é uma forma de ganhar dinheiro fácil e se embriagar de um poder elitista. Infelizmente essa imagem é apenas reflexo do que a política na contemporaneidade tem se tornado, exponenciada principalmente pelos diversos escândalos que nossos ilustres representantes tem demonstrado cotidianamente.

O filósofo grego Aristóteles em sua memorável obra intitulada Política, destaca que o homem é um animal político*, ou seja, o homem possui uma essência que o inclina a buscar o bem, e a forma mais elevada de atingir este fim é através do Estado, onde o bem se consolida nas maiores proporções e excelências possíveis*. Contudo, estas belas palavras fogem totalmente a nossa realidade, até porque, o filósofo (que viveu por volta de 350 anos antes de Cristo) vivia em uma sociedade onde nem todos os seres humanos eram dignos de seres nomeados com o título de cidadão.

Ao contrário dos tempos do filósofo grego, hoje é bem mais fácil ser cidadão. O problema realmente consiste em como exercer a cidadania. Infelizmente grande parte das pessoas se preocupa muito mais com o último namorado da atriz famosa da televisão, e permanece apática aos projetos e planos de governo dos representantes da república.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman observa que vivemos o regime político-econômico da incerteza. As pessoas a cada dia que se passa olham para a política com desdém, opiniões construídas por ideologias que propagam à população idéias de que a política é algo sujo, o que abre margem para uma vida cada vez mais individualizada, voltada para a satisfação do ego e desinteresse a sociedade e a condição do outro.

Maioria silenciosa é a definição que o pensador francês Jean Baudrillard atribui à massa que compõe a grande parcela da população “apolítica” que aceita e acredita em tudo que é imposto. “Simplesmente não há significado social para dar força a um significante político”**, ou em outras palavras, não temos significados e nem autonomia para organizar uma sociedade política. Os políticos, como bons observadores, investem muito mais em mecanismos publicitários do que em idéias novas e inteligentes, consecutivamente as propostas políticas se tornam espetáculos que despertam comoção, riso, alegria, felicidade, etc.

Gostaria de terminar esse pequeno texto com um parecer um pouco mais positivo, o que é muito difícil, pois enquanto os cidadãos se portam como público e os políticos como atores, o verdadeiro sentido da política - possibilitar o bem comum a toda sociedade – acaba sendo uma triste lembrança dos longínquos tempos de Aristóteles.

*Aristóteles. Política. São Paulo: Nova cultural, 1999.

**Baudrillard, J. À sombra das maiorias silenciosas. Brasília: Brasiliense, 1985

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

MARX NÃO MORREU!


O mito sempre retorna!!

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

No céu...




(CLIQUE NAS IMAGENS PARA MELHOR VISUALIZAÇÃO)
Fonte: http://www.umsabadoqualquer.com/

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Literatura e Filosofia: O alienista e a crítica ao cientificismo




Os livros de literatura estão incluídos entre as minhas maiores paixões e costumo dizer que a literatura é uma forma esteticamente bela e leve de fazer filosofia, isso sem perder a profundidade presente nos maiores filósofos. Por isso resolvi iniciar um projeto de extrair e comparar histórias com idéias filosóficas. O primeiro livro a ser escolhido é O alienista de Machado de Assis.

Desde criança manifestei uma inclinação a buscar nos livros algum conforto ou até mesmo entretenimento para escapar das emblemáticas situações mundanas, mas com o tempo as exigências pragmáticas e principalmente escolares (algo bastante curioso) fizeram com que se eximisse meu gosto pela literatura e que criasse alguns preconceitos, destinados principalmente àqueles livros referências para o vestibular. Infelizmente depois de ser obrigado a ler Escrava Isaura, Primo Basílio e a decorar os sonetos de Camões tornei-me antipático perante “os clássicos dos vestibulares”. Machado de Assis foi um dos escritores que guardei certo rancor, tudo devido à ditadura e a falta de preparação advinda de aulas de literatura mal fundamentadas.
Mas o mundo é um constante devir e a cada momento que passa nos transformamos é o que já afirmava o filósofo Heráclito de Éfeso, e com o tempo veio minha formação filosófica e aos poucos fui mudando meus pontos de vista, principalmente em relação ao maior escritor tupiniquim: o grande Machadinho. Para me redimir de tal heresia e para dar cabo a este projeto de unir filosofia com literatura, decidi escolher e homenagear nosso escritor majoritário.


O alienista é um conto elaborado no ano de 1882 é considerado uma das primeiras obras realistas compostas no Brasil. Seu enredo tem como tema a vila de Itaguaí, onde o ilustre Doutor Simão Bacamarte, dono de um nobre espírito cientificista, referência médica em Portugal, na Espanha e no Brasil, decidiu em nome da ciência realizar experiências visando à descoberta do tratamento contra a loucura. Em sua famosa Casa Verde, decidi tratar os diferentes tipos de loucura. Primeiramente são relatados casos curiosos como o jovem Falcão que acreditava ser uma estrela d’alva que se abria de acordo coma posição do sol. Mas no decorrer da obra o médico apoiado no aval da ciência, decidi internar todos aqueles que apresentam comportamento fora do padrão racional, o que faz com a maior parte da cidade seja internada na casa de orates. A trama histórica desenvolvida por Machado é recheada de tentativas revolucionárias e contradições que desencadeiam a um resultado inusitado e até mesmo hilário.
Ao ler essa obra, não pude deixar de fazer certas analogias com algumas idéias e fatos.
Primeiramente está explicito no texto uma comparação com a revolução francesa, onde uma elite é expulsa do poder por um regime popular (revolução propagada pelos Jacobinos, onde o Rei Luis XVI perdeu sua cabeça na guilhotina), contudo esse regime é permeado por brigas, e logo depois o governo centrado é retomado novamente (a centralização do poder nas mãos de Napoleão).
Mas o que mais me interessou neste conto foi à crítica de Machado de Assis ao cientificismo. Sabemos que Machado foi contemporâneo a uma época extremamente otimista em relação à ciência. O positivismo de August Comte era a filosofia em voga e via na ciência uma forma de controlar e ordenar o mundo. Satiricamente o Doutor Bacamarte é o expoente maior do homem positivo, um homem que não se rende as paixões, frio e calculista, onde seu principal objetivo é clarear as profundezas da insanidade com as luzes da razão. Machado brinca com o objetivismo exacerbado do doutor:

“Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou se de semelhante escolha e disse lho. Simão Bacamarte explicou lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, - únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá lo, agradecia o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.”

Como podemos notar o doutor demonstra objetivismo até para se casar, contudo, sua teoria vai por água abaixo quando descobre que sua companheira é estéril. Algo curioso que pode ser comparado ao pensador que de tanto contemplar o céu acaba tropeçando nas pedras do chão.
Também podemos ver explicitamente neste conto, a crítica levantada pro Foucault em sua bibliografia, onde o louco nos ditames da razão é considerado como um doente, alguém que precisa ser recluso e tratado, pois esse perdeu a condição que o tornava humano. A Casa Verde é um retrato do panóptipo exposto no livro “Vigiar e Punir”, onde os anormais são observados por um poder centralizado, com fim de retificá-los sob o olhar da disciplina.
Outro paralelo que não pude deixar de construir ao me deliciar com essa leitura, foi com a obra Dialética do esclarecimento de Adorno e Horkheimer. Neste importante compêndio de idéias, os filósofos vêm enfatizar o quanto à ciência se tornou instrumental e o poder irracional que emana de sua elucidação. Ao longo da história, obcecado pelo ideal do expurgo do insano, o Doutor Bacamarte acaba internando seus melhores amigos e inclusive sua esposa por atos banais (como a indecisão em relação à escolha de um colar). Fato que ilustra a teoria dos filósofos alemães que pregam que o domínio da razão se tornou algo extremamente irracional (que o diga movimentos como o fascismo). E o pior de tudo que tanto no conto quanto na vida real, por ser algo extremamente concordante com a razão, as pessoas aceitam as premissas científicas sem nenhuma avaliação crítica sobre os impactos e fundamentos éticos que as permeiam.
Porém o mais importante na crítica do escritor carioca é que não se deve elevar a razão cientificista a um patamar absoluto, pois pode ser tão nociva quanto à irracionalidade absoluta. E o mais engraçado é que no século passado presenciamos situações em que vimos à racionalidade mover milhões de pessoas para atitudes totalmente irracionais e descomunais.
E continuo afirmando... a literatura é uma forma elegante de fazer filosofia!

Domingo, 24 de Maio de 2009

Cada coisa...

O clima deste blog está muito pesado e pra descontrair um pouco, vou postar o Funk filosofal da banda Comunidade Nin-jitsu.
Cada coisa!!

Funk Filosofal

Comunidade Nin-Jitsu

Composição: Fredi Endres e Carol Teixeira

Penso, logo existo
É o que Descartes dizia
O funkeiro não tem não
Sua cabeça vazia


Torna-te quem tu é
Vê se pega a Salomé
Nietzsche zoa de montão
Ela não quis ele não

O inferno são os outros
Não é a sua sogra não
Esse Sartre é um louco
Entre os quatro paredão


Um homem nunca entra
Duas "veiz" no mesmo rio
Mas se o Rio é de Janeiro
Heráclito vem pro Brasil

Toma que toma, toma, toma
Vinho do barril
Na suruba do Olimpo
O deus Baco se sumiu


Pega ela pega, pega, pega
Pega a Afrodite
Se ela é deusa do amor
Não tem porque ter limite

Aaaaaaaaaah...
Esse é o funk filosofal
Quem não entendeu
Por favor, não me leve a mal

O Platão era viado
Menosprezava as "muié"
Se isso é ser inteligente
Eu prefiro ser mané


Pelo menos dou valor
Mostro bem como é que é
Bota, tira, tira, bota
Faço tudo que ela "qué"

Download:

http://www.4shared.com/file/107498759/54e8d831/10_funk_filosofal.html

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Oh morte, tu que és tão forte...


Segundo Platão, a Filosofia é uma preparação para a morte, isso porque com o auxílio da sabedoria o filósofo pode olhar para morte de uma forma tranqüila e não se agonizar perante o eminente fim que todos iremos atingir.
A sabedoria comum enfatiza que a única certeza que temos na vida é o fim de nossa existência, a partir disso, esta idéia é tida com um gigantesco potencial de transcendência, ou seja, a partir da idéia de morte diversas culturas elaboram construções culturais, artísticas, religiosas e filosóficas. Dentre esses diversos “ambientes” vimos surgir as mais diferentes interpretações em relação à finitude existencial.


A morte em uma perspectiva tribal

Nas primeiras sociedades a morte e tida como algo normal e reverenciadodevido ao aspecto da coletividade dos povos primórdios, o espírito de coletividade que existia nas tribos fazia com que os homens louvassem a morte, o morrer era visto como um transportar para o mundo dos mortos.
Vários povos faziam rituais para se comunicar com a “sociedade dos mortos”, nessas sociedades era freqüente o número de sacrifícios para agradar deuses e salvar toda a tribo.

A morte em uma perspectiva mítica.

Nos mitos a relação com a morte é quase que constante tanto objetiva e subjetivamente. Constantemente a salvação depende de sacrifícios e a morte e encarada em uma perspectiva totalmente diferente do que a vemos hoje.
A paixão de Cristo é um exemplo de como o herói no mito tem de enfrentar a morte para cumprir sua meta como herói, todo o sangue derramado, a crucificação, a dor e o sacrifício são vistos como a morte do individuo para a vida do coletivo.
No mito grego do deus Dionísio, ele é dilacerado por titãs e ressuscitado graças ao seu coração que foi salvo pela deusa Atena, sua morte seguida de sua ressurreição mostra o ciclo da vida de acordo com uma perspectiva órfica, onde a alma do ser (coração) continua, e o corpo sempre se renova.
A morte dentro do mito nos faz refletir como a sua interpretação foi mudando de acordo com cada cultura. Mas ela sempre esteve presente sob uma forma de sacrifício do individuo para a salvação do coletivo.

A morte no Orfismo.

A primeira religião ocidental que atribui à morte um caráter dualista é o Orfismo, essa religião que foi criada por Orfeu, concebia a morte como a finitude do corpo físico, porém o espírito é eterno e continua “migrando” de um corpo para ao outro, para se redimir de uma culpa originária. Segundo o orfismo o único jeito para escapar dessa seqüência de transmigrações, era através dos rituais órficos, que purificavam a alma. O orfismo teve notável influência na Filosofia de Platão.

A morte para Sócrates

No livro Fédon de Platão, Sócrates se tranqüiliza diante da morte enquanto seus companheiros e amigos ficam em um sentimento “desesperador”, não se sabe autênticamente o que é a Filosofia de Platão e o que realmente foi dito por Sócrates, porém tal concepção é possuidora de uma visão dualista e totalmente racional.

“E estareis de acordo comigo se acrescentardes a esta última prova aquelas que eu apresentei a respeito de que tudo o que vive nasce daquilo que está morto. Porque se é certo que nossa alma existe antes de nascermos, e se é preciso que ao surgir para a vida , ela saia por assim dizer, do seio da morte, como poderá existir após a morte , já que deve regressar à vida?” (Platão, 1999. pág. 22)

Sócrates afirma que a filosofia é uma preparação para a morte, pois a morte não é o fim, mas sim o começo de um novo ciclo para a alma do homem, está que tem parte essencial na constituição da pessoa. Ou seja, enquanto o corpo morre a alma transmigra para outra, levando consigo o conhecimento, por isso tanto no pensamento Socrático quanto no pensamento Platônico a Filosofia tem um papel fundamental, pois esta torna a alma mais sábia e com isso faz com que nas outras vidas o homem seja virtuoso, afinal a Filosofia na Grécia é sinônimo de uma vida virtuosa.
Tal pensamento faz com que Sócrates mantenha uma atitude puramente racional diante da morte, o que faz com que a vida não seja temida e levada com certo desdém pelo filósofo. O filósofo Friedrich Nietzsche, no século XIX, ridiculariza Sócrates e o chama de pessimista e covarde, pois supostamente, o filósofo deixou-se morrer não se importando com a vida e fazendo referência a um galo que ele devia a seu amigo.

A morte para Epicuro

Com a ascensão de Alexandre ao poder, toda supremacia grega aparece ter entrado em certo declínio e com isso todo racionalismo proposto pelos grandes filósofos também foram de certa forma ofuscados, com isso entrou em vigor várias escolas que tentaram reinterpretar a Filosofia e abordar um lado mais existencial. Uma dessas escolas foi o Epicurismo.
O filósofo de maior impacto (como o nome já diz) foi Epicuro, 341 – 270 a.C. O pensador fez de sua Filosofia uma forma de viver uma vida sem temor e baseada em um prazer necessário a sobrevivência.
Ao falar sobre a morte, o Epicurismo tenta se desvencilhar de qualquer conforto ou vida póstuma, adotam uma perspectiva materialista e atéia. A morte é um mal só para que se nutre de falsas opiniões sobre ela, pois ao morrer a consciência já não existe, ou seja, a morte não é pavorosa em si, pois quando ela chega nós já não sentimos nada. Nossos átomos de dissociam e deixamos de ser aquilo que éramos. Epicuro também fala que ao imaginar a morte só podemos imaginá-la em terceira pessoa, pois está além de qualquer sentido.

A morte na idade média

Na idade média com a supremacia do Cristianismo, criou-se uma nova visão para a morte, o bom cristão que seguia os dogmas católicos teria salvação eterna, se encontraria com Deus e teria na ressurreição a vida perfeita. Porém as pessoas que eram hereges ou pecavam e não se redimiam, eram condenadas ao inferno, onde o sofrimento é eterno, o inferno na perspectiva cristã é representado pelo fogo e habitado por Lúcifer e os outros anjos decaídos.
O homem acreditava na ressurreição do corpo e para muitos o pós-morte não era temido, pois era a chance de se encontrar com Deus.
“Melhor é a boa fama do que o melhor ungüento, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém.
Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.
Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria.” (Eclesiastes, Capítulo 7)


Curiosamente na idade média o morto era posto na sala da casa, crianças e familiares conviviam com ele e davam seu ultimo adeus. A esposa guardava luto e cabia a ela a tarefa de lamentar-se diante do morto. Nesta época existia um respeito muito maior pelo morto do que o existente hoje.
Foi nessa época que começou a relacionar-se a morte com uma caveira de preto.

A morte para Arthur Schopenhauer

O Filósofo Arthur Schopenhauer foi outro pensador que tentou fez da morte um sistema de sua Filosofia. O filósofo alemão tem grande influência do Budismo, do Platonismo e do Kantismo.
Em seu famoso livro O Mundo como vontade e representação, o filósofo alemão destina uma parte para analisar a morte e sua suposta limitação. Schopenhauer parte do princípio de Sócrates ao dizer que a Filosofia é a preparação da morte, tal opinião é formada, pois o conhecimento que advém da indagação filosófica faz com que a pessoa aceite seu fim de uma forma tranqüila e racional.
Segundo o filósofo, o temor da morte advém da vontade incessante de viver a vida, ou seja, o instinto que os animais possuem para proteger sua vida e manter sua espécie. Tal vontade é determinada importância na preservação da espécie.
Em relação à natureza, a morte não faz sentido, pois está não leva em consideração a singularidade. Por exemplo: A morte de um leão não afeta em nada a espécie dos leões, até porque praticamente todos os leões desempenham papéis praticamente iguais na biodiversidade da natureza. Neste trecho é notável a influência do pensamento Oriental propagado por Buda há 2500 anos atrás.
Porém ao longo da história foi se tornando cada vez mais individualista e isso fez com que se afastasse de tal idéia e começasse a temer sua finitude. Com isso o homem criou vidas ulteriores para amenizar o pesado fardo da morte, nesta parte Schopenhauer faz uma referência ao Cristianismo que utiliza a promessa de reencarnação.


“O indivíduo vitimado pelas angústias da morte nos oferece um espetáculo verdadeiramente estranho e até mesmo risível[...] é ele, no entanto, que sofre e se desespera com o medo da morte, uma vez que fica sob influência daquela ilusão produzida pelo princípio individual [...] Essa ilusão faz parte do sonho opressivo, no qual ele mergulhou enquanto vontade de vida” (SCHOPENHAUER, 2003. pág. 67)

A morte representa o egoísmo do ser humano personificado, enquanto para a natureza ela é necessária, como uma renovação da espécie e da biodiversidade, a morte é a perda de uma individualidade e a obtenção de uma outra [IDEM, 2003. Pág.69].
A convivência coma morte é essencial para que este viva uma vida digna, nas palavras do filósofo, pois a morte é a coisa mais natural da vida e é o meio que a natureza tem para se livrar e “reciclar-se”. Porém o homem é egoísta e tenta evitar a morte a todo custo, contudo Schopenhauer rebate tal idéia enfatizando que se existisse a eternidade o homem aclamaria para a vinda da morte.
É possível analisar a tendência ao budismo no pensamento deste filósofo principalmente quando ele se refere à reencarnação, porém ele se afasta da metempsicose e afirma que não é o eu em si que transmigra de corpo em corpo e sim a essência do homem , ou seja, a vontade.
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“Em geral, a morte de todo homem de bem pé doce e tranqüila, mas morrer sem má vontade, voluntariamente, morrer satisfeito, é privilégio do homem resignado, daquele que renuncia à vontade de vida: pois ele só quer uma morte real” (IDEM, 2003. Pág. 74).

A morte na perspectiva de Sören Kierkegaard


Sören Kierkegaard é considerado por muitos o pai do Existencialismo, tal doutrina consiste no estudo da existência do homem e todas as manifestações que ela apresenta. Tais como a angústia, o desespero, a liberdade, a espiritualidade e inclusive a morte.
O filósofo dinamarquês fez um grande estudo sobre a pessoa humana e a subjetividade sempre ressaltando seu lado espiritual cristão.
Na filosofia de Kierkegaard, o homem é formado principalmente por seu espírito e este é a dimensão de Deus no homem. Para que o homem tenha uma vida feliz e livre de desespero, tem de se buscar aproximar-se de Deus e de seu espírito.
O desespero advém de quando o homem d se afasta desta dimensão e isso acarreta a angústia e o desejo da morte. Porém Sören não concebe a morte como o fim e sim um recomeço, portanto a morte só é vista como boa para o cristão, que se encontra com Deus. Para aquele que está desesperado a morte é o prolongamento e a infinitude do desespero.

“O desespero é doença mortal: ‘eterno morrer sem, no entanto não morrer’; ‘autodestruição impotente’. Do ponto de vista cristão a morte é sequer é doença mortal, muito menos qualquer sofrimento terreno e temporal. A morte pode ser o fim da doença, porém na perspectiva cristã não significa o fim, por isso quando o homem clama pela morte desesperadamente, mal sabe que aquele não é o seu fim.” (REALE, 2005. Pág. 247).

Para Kierkegaard, quando o desespero aparece no homem, de certa forma o eu (a dimensão espiritual) já está morta. E o homem só se livra desse desespero acolhendo a Deus e consecutivamente se descobre eliminando toda angústia em sua vida.

A morte para Martin Heidegger

O filósofo alemão Martin Heidegger foi um dos grandes fundamentadores do Existencialismo. Apesar disso negou todo rótulo que o aproximasse de tal definição. Sua problemática principal foi à questão do ser e a questão do ente.
A princípio sua Filosofia crítica toda a concepção que denomina o ser como ente. Para ele está é uma confusão propagada ao longo de toda história da Filosofia Ocidental. O Ente é a existência em si, enquanto o ser é aquilo que determina o modo de ser ou essência do homem.
Em sua Obra O ser e o tempo, Heidegger analisa o sentido do ser a partir do que nós homens somos. O filósofo cria toda uma terminologia a se referir ao homem, este se chama Dasein (o ser-aí).
O Dasein é o único ser que tem a possibilidade de analisar e refletir sobre sua existência, é um ser lançado no mundo e que possibilita através de sua existência através dos projetos para desenvolver sua existência, ou seja, quando o homem constrói um projeto de sua existência.
O homem é o único ser que interroga sobre seu sentido, por isso não pode ser reduzido a um simples objeto. Ao ser lançado no mundo, o homem tem sua dimensão ofuscada pelos outros, o que pode prejudicar seu projeto de existência. Com isso o homem está venerável a angústia, que é a perca do eu e o abandono do projeto particular diante das situações adversas que conflitam com o Dasein.
O homem tem infinitas possibilidades de projetos para a sua vida, porém existe uma possibilidade que pode impossibilitar ou por fim em todos os projetos do homem: A morte. A morte é a única possibilidade certa na no decorrer da vida de todo Dasein.
Heidegger vem dizer que o homem sente angústia perante a morte devido ao inesperado que é o não ser. Porém o homem para se sentir confortável perante seus projetos e suas escolhas deve ter consciência e se familiarizar com a morte:
“Existir autenticamente implica ter a coragem de olhar de frente a possibilidade do próprio não ser, de sentir a angústia do ser-para-a-morte. A existência autêntica significa a aceitação da própria finitude” (REALE, ANTISERI. 2005, Pág. 588)
No estudo Heideggeriano, a morte tem um papel fundamental, pois ela é a completude das possibilidades do Dasein, porém esta visão foi contestada por outro existencialista famoso: Jean Paul Sartre.


A morte na perspectiva de Jean Paul Sartre

Sartre nasceu em Paris, foi um teatrólogo de muito sucesso, o que faz ser um dos filósofos mais conhecidos de nosso tempo. O filósofo francês é considerado por muitos, o que mais elevou o nome do existencialismo.
Na Filosofia Sartreana, o homem se constrói a medida de suas vivências, daí a famosa frase que Sartre usa em seu famoso ensaio “A existência precede a essência”, isso para o filósofo quer dizer que o homem é o artífice de seu existir.
O homem nasce sem uma essência pré-definida, logo o homem quando nasce, nasce nada. Ou seja, não tem nenhuma tendência ou inclinação projetada por algum Deus ou pro algum mecanismo (podemos encaixar aqui a crítica Sartreana a Psicanálise Freudiana). O homem é livre para tudo, a única coisa que ele não pode se libertar é de sua liberdade, o que soa contraditório, “estamos condenados a ser livres”.
A vida para Sartre não tem um sentido propriamente dito, isso acarretou em muitas críticas ao existencialismo, pois foi considerado frio e sombrio. Porém o autor rebate que tal doutrina é composta de exacerbado otimismo.
“São estas as pessoas que acusam o existencialismo de ser demasiado sombrio, a tal ponto que eu me pergunto se elas não o censuram, não tanto pelo seu pessimismo, mas, justamente pelo seu otimismo. Será que, no fundo, o que amedronta na doutrina que tentarei expor não é fato de que ela deixa uma possibilidade de escolha para o homem?” (SARTRE, 2002).

Na perspectiva Sartreana, a morte vem para confirmar a falta de sentido da vida, pois esta desconstrói tudo aquilo que o homem edifica em sua existência. Ou seja, se em minha existência consigo as fama por escrever um bom livro, posso morrer quando no dia em que eu conseguir um suposto prêmio pelo tal livro. Isso quer dizer que a morte veio e desconstruiu tudo aquilo que fiz reafirmando a falta de sentido que é a vida, e a quão absurda ela é.
Sartre crítica o ponto de vista de Heidegger, ao afirmar que não podemos nos preparar para a morte, pois esta é desprovida de sentido e pode vim a qualquer hora. Por exemplo: Estou com câncer e me preparo para uma possível morte em cerca de três meses, a caminho do hospital o motorista bate o carro e eu morro, toda expectativa sobre a morte se eximiu.

Domingo, 17 de Maio de 2009

O mito da caverna e a Matrix


A leitura filosófica mais comum, e certamente a mais fácil de ser feita, acerca do conceito de Matrix, apresentada no filme de mesmo nome, é utilizando o mito da caverna de Platão. Este mito, contado a Glauco por Sócrates no livro VII d’A República, trata de duas questões importantes dentro do pensamento platônico: a natureza da realidade e o processo do verdadeiro conhecimento.

No mito da caverna, temos a imagem de pessoas acorrentadas, no fundo de uma caverna, de fronte à uma parede onde podem ver apenas as sombras de tudo aquilo que há atrás delas, e que são, na verdade, projetadas por outros homens com imagens de animais e pessoas feitos de madeiras e pedras. Sócrates, então, julga que essas pessoas teriam para si que essas sombras é que seriam a realidade, aquilo que é verdadeiro, pois estariam ali desde o seu nascimento, sem conhecer nada de diferente e, portanto, sem qualquer tipo de parâmetro comparativo ou mesmo consciência para fazê-lo.

No entanto, se uma pessoa conseguir se livrar das correntes, ou for forçada a fazê-lo, e saísse da caverna, ela passaria por estágios de dor e sofrimento, tanto físicos quanto psíquicos, até poder finalmente contemplar o Sol e a luz da verdade, que a tiraram das trevas da ignorância e do mundo das sombras, das aparências.

Diz Sócrates que esta é uma imagem, uma metáfora de todos nós em relação ao mundo sensível e ao mundo ideal. Enquanto acreditamos que a verdade está nas coisas do mundo, estamos na realidade acorrentados, visualizando apenas as sombras daquilo que achamos ser real. Ao passo que, quando começamos a enxergar e contemplar o Ser nas coisas, as suas essências, as suas idéias que não estão nelas em si, mas nos conceitos universais, é quando saímos da ignorância e passamos a ver a realidade, a verdade em si. E o trabalho de trazer a luz aos olhos das pessoas, é claro, cabe ao filósofo.

O filme Matrix faz desta metáfora platônica uma realidade high-tec, num ambiente onde as máquinas inteligentes controlam o mundo e utilizam-se dos seres humanos como fonte de energia. Para tanto, elas criam uma realidade simulada, chamada de Matrix, onde aquelas pessoas, que estão na verdade dormindo, vivem e acreditam ser o mundo real, o lugar que todos os seres humanos sempre viveram livremente e tocaram suas vidas. Essa realidade simulada é exatamente o mundo em que vivemos, o mundo sensível.

Porém, houve uma colônia de humanos que conseguiu sobreviver e isolar-se em uma cidade chamada Zion (a forma inglesa de Sião, a terra prometida por YHWH aos hebreus), onde puderam construir naves e também terem acesso a Matrix através de programas de computador. É desta forma que Morpheus e os demais tripulantes da nave Nabucodonossor tentam derrotar as máquinas inteligentes e despertarem para a realidade todos os seres humanos.

Com a ajuda do Oráculo que, como é dito no segundo filme da trilogia, é uma falha do próprio sistema, Morpheus é informado que o escolhido, aquele que salvaria a todos do domínio das maquinas, será descoberto por ele. Após muitos anos buscando o escolhido, ele encontra Neo e começa o processo de desperta-lo para a realidade. Processo esse dificultado, como não poderia deixar de ser, pelos agentes, que nada mais são do que programas criados para resguardarem a Matrix.

Ao conseguir encontrar-se com Neo, Morpheus dá inicio às cenas mais significantes simbolicamente, ao travar um diálogo à cerca da realidade, perguntando aquele que ele pensa ser o escolhido se ele acredita que aqueles objetos que os cercam são reais, e convidando-o a tomar a pílula vermelha (que lhe revelará a verdade) ou a pílula azul (que o manterá na ignorância). Tendo escolhido a primeira, Neo renasce, ou melhor, nasce no mundo real, num processo lento e sofrido, como havia descrito Sócrates na obra platônica. E a partir daí, então, dá-se início a guerra entre humanos e máquinas, onde uns lutam para se manter no poder, e outros para retomá-lo.

Qualquer outra coisa dita fora isso será absolutamente óbvia na relação entre ambos. É-nos muito clara a inspiração que os autores do filme tiveram na obra de Platão, e como tanto um, quanto o outro nos fazem questionar se realmente podemos conhecer a natureza das coisas, se aquilo que nossos sentidos captam podem ser afirmados seguramente como sendo a verdadeira realidade e, até mesmo, se há de fato uma realidade a ser conhecida, e qual o papel do ser humano em todo este processo.

Este caminho, que acaba nos levando ao ceticismo nascido com os sofistas, é penoso para ser percorrido dentro da Filosofia, pois ao eliminar a possibilidade do conhecimento, praticamente todo o resto acaba sendo também eliminado. Sempre poderemos questionar se não há outro mundo mais real que o Mundo das Idéias, ou se as máquinas também não criaram a realidade em que Zion está inserida. E não nos restará outra coisa que senão vivermos na aparência, naquilo que nos é apresentado como sendo realidade, sem ter qualquer tipo de certeza acerca da profundidade e do real significado daquilo que vivenciamos. É um duro golpe para seres que tem como parte de si dar significação às coisas.

O absurdo que é a vida (e a morte), como já diziam os existencialistas, nos permeia e faz com que nós, os filósofos (se é que podemos nos denominar assim) nos admiremos e, ao mesmo tempo, espantemos com o mundo ao nosso redor, o que só faz com que novos questionamentos surjam... Acabamos por cair num beco sem saída lingüístico, onde questionamos a possibilidade do conhecimento fazendo um discurso sobre ele, o que por si só já é questionável, pois que estamos produzindo um “conhecimento” sobre a impossibilidade do conhecimento. Mas se não fazermos assim, faremos como? E, de qualquer forma, se não podemos ter o conhecimento, faremos o quê?

Talvez ouçamos Epicuro e distorçamos, com a ajuda do sempre presente capitalismo, seu hedonismo, e nos entreguemos de vez. Ou então esquecemos a questão, e procuramos trabalhar de outras formas... A questão do conhecimento ainda é uma constante dentro da Filosofia e continua tão atual quanto era na Grécia Antiga, ou até mesmo antes, nos povos do oriente. Estamos longe de uma resposta, mas a busca continua. E talvez seja isso o que o conhecimento é: um caminho a ser percorrido, sem ter um ponto final. Somos todos caminhos.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Os filósofos em Lost


Lost, a série de grande sucesso da rede americana ABC, tem muitos elementos baseados em teorias científicas e pensamentos filosóficos. Mas eles vão além: utilizam-se de nomes de cientistas e filósofos em seus personagens, de forma a dar pistas da personalidade ou função do mesmo de acordo com o pensamento ou área de atuação dessas figuras intelectuais de nosso mundo real. Aqui irei enumerar e expor alguns personagens que têm nomes de filósofos e, quando for possível, fazer uma correlação entre ambos.


John Locke


Lost: Johnathan “John” Locke, norte-americano, era paraplégico antes de cair na ilha. Desde então recuperou-se desta limitação física de forma misteriosa, o que parece confirmar a sua ligação especial com a ilha. Ele acaba fazendo uma espécie de oposição à liderança de Jack, e se “une” a Ben por motivos de interesse pessoal. Ao final da 4ª temporada, descobrimos que ele morre enquanto tenta levar os Oceanic 6 de volta à ilha. Mas muitos mistérios ainda rondam a personagem.

Filosofia: John Locke é um filósofo inglês do século XVII. Ele é pai do liberalismo e têm grande influência na formação da democracia moderna. Para ele todos os homens, em seu estado natural, têm iguais condições para punir os transgressores, mas acabam criando o Estado para que a punição seja mais justa. Na questão voltada ao conhecimento, ele defende a idéia da Tabula Rasa, onde as pessoas nascem sem saber absolutamente nada, e todo o seu conhecimento é adquirido através do meio em que vivem. Inclusive escreveu um livro sobre como as crianças devem ser educadas (Alguns Pensamentos Sobre Educação), onde defende que elas devem ser tratadas como adultos desde pequenas, e não devem nunca ser mimadas, nem ouvir histórias fantasiosas, mas sim desenvolverem um senso de sociedade de forma prática.

Correlação: Assim, como o filósofo, o Lock de Lost defende, no começo, uma igualdade entre os sobreviventes na ilha, e esboça um grupo separatista daqueles liderados por Jack. A idéia de educação do filósofo John Locke também aparece na personagem da série na parte educacional, nos conflitos entre Michael e Walt. Além disso, Tabula Rasa é o nome do terceiro episódio da primeira temporada, que tem a personagem Kate como centro da história.

Curiosidade: Nos últimos episódios da 4ª temporada, John Locke aparece utilizando o pseudônimo de Jeremy Bentham, que também foi um filósofo inglês, porém do século XIX. Seguia a idéia do utilitarismo egoísta (que defende que é bom e ético aquilo que é útil ao indivíduo), e ficou famoso por desenvolver o panoptismo, princípio que corresponde à observação total do indivíduo, eliminando-lhe a sua liberdade. Como Locke, personagem de Lost, utiliza o nome de Bentham enquanto tenta levar os Oceanic 6 de volta à ilha, podemos ver esta idéia do panoptismo presente.





David Hume


Lost: Desmond David Hume é um escocês que já estava na ilha antes do avião da Oceanic Arilines cair. Ele morava sozinho na estação Cisne antes de ser descoberto por Jack, Kate e Locke. Foi parar lá após se perder durante uma regata ao redor do mundo. Se junta aos sobreviventes do vôo até ser resgatado por Penelope Widmore, sua namorada, juntamente com os Oceanic 6 e Frank Lapidus. Antes de conhecer Penelope foi monge, e depois militar. Ele é o personagem que está mais ligado com o fator temporalidade: num primeiro momento consegue prever o futuro, e em outro volta ao passado. Não sabemos o que acontece com ele após o resgate.

Filosofia: David Hume é um filósofo escocês do século XVIII. Sua filosofia disserta bastante sobre a questão do conhecimento humano. Ele é determinista, ou seja, acredita que tudo que acontece está pré-determinado por um acaso onde, como numa corrente, um acontecimento influi no outro e, portanto, não há livre-arbítrio. Era a favor do suicídio e achava que a moralidade não provinha da razão, mas sim dos sentimentos. Cem anos antes de Darwin, ele já falava sobre o conceito de seleção natural.

Correlação: É realmente muito difícil fazer uma correlação entre ambos. Pra começar, o Hume filósofo era ateu, enquanto que o personagem de Lost é religioso e ex-monge. O filósofo defende o determinismo, enquanto que o personagem consegue prever o futuro e muda-lo, salvando Charlie da morte várias vezes. É claro que, no final, não há escolha para o Charlie senão morrer, ele não pode escapar do destino. Mas o fato de Desmond ter podido salvá-lo algumas vezes já elimina a idéia do determinismo, a não ser que sempre estivesse previsto que ele o salvaria todas aquelas vezes. Um dos principais fatores que ligam ambos é, provavelmente, o Problema da Indução, em que o filósofo questiona o motivo de induzirmos que, porque fizemos uma coisa do mesmo modo e ela todas as vezes deu o mesmo resultado, logo ela SEMPRE dará o mesmo resultado. É exatamente o mesmo questionamento que Desmond fica fazendo a si mesmo ao apertar os botões da escotilha durante a segunda temporada da série.


Thomas Carlyle


Lost: Boone Carlyle é um californiano sobrevivente do vôo 815 da Oceanic Airlines. Irmão de Shannon Rutherford, outra sobrevivente, foi o primeiro personagem principal a morrer na série, após tentar fazer contato pelo rádio do avião nigeriano que fora usado por Mr. Ecko anos antes de eles terem ido parar na ilha.

Filosofia: Thomas Carlyle nasceu na Escócia no final do século XVIII, e foi um dos pensadores que influenciaram no desenvolvimento do Socialismo. Para ele, a história poderia ser interpretada através da vida de seus grandes líderes e heróis, o que lhe rendeu vários livros. Suas obras são um grande marco na historiografia romântica.

Correlação: Boone sempre quis ser um herói. Isso fica bastante claro nos primeiros episódios, onde ele tenta dar uma de líder mas, obviamente, não consegue, sendo sobrepujado por Jack, um líder nato. Sua morte se dá por esses termos, quando ele tenta fazer contato no rádio do avião, mesmo com a iminência deste despencar do local onde estava.





Jean-Jacques Rousseau


Lost: Danielle Rousseau é uma francesa que já está na ilha há 16 anos, presumivelmente após um acidente com seu grupo de pesquisa. Pouco se sabe da vida dela, quer seja antes ou após ter ido parar lá. Vive na floresta, sozinha. Teve uma filha, Alex, que foi criada (provavelmente roubada) por Ben, e só foi reencontrá-la no final da 3ª temporada. Morre uma temporada depois, mas é esperado que os mistérios que rondam a sua vida sejam revelados nas duas últimas temporadas da série.

Filosofia: Jean-Jacques Rousseau, filósofo do século XVIII, nasceu em Genebra, Suíça. É um dos pais do Iluminismo francês, juntamente com Voltaire. Sua maior contribuição está na política, onde defende a idéia de contratualismo, que diz que os homens, nos primórdios, fizeram um acordo inconsciente entre si, chamado de Contrato Social, para poderem superar as dificuldades da vida natural e viver em sociedade. Defendia que o homem em seu estado de natureza é bom e puro (conceito do Bom Selvagem), e a vida em sociedade é o que lhe corrompe. Mas como esta é inevitável, diz que todos devem ter uma educação que possa ensinar como viver o mais próximo possível desse estado puro do passado. Por isso, a educação é a segunda área em que ele mais contribui com seus pensamentos.

Correlação: Provavelmente, aqui é que vemos a relação mais explícita na série entre o personagem e o filósofo que lhe emprestou o nome. Danielle demonstra ser uma pessoa muito ética, e ajuda os sobreviventes sempre que estão em apuros. Vive há muito tempo sozinha, na floresta, e isso parece tê-la levado a desenvolver novamente a pureza e bondade de que Rousseau, o filósofo, falava.

Anthony Ashley-Cooper


Lost: Anthony Cooper é um golpista norte-americano, pai de John Locke. O que sabemos de sua vida é que ele já utilizou muitos nomes e deu muitos golpes em mulheres, inclusive a mãe de Sawyer. Revela ser pai de Locke quando precisa de um transplante de rins, e some logo em seguida, o que acaba por se caracterizar como mais um golpe para obter aquilo que precisava. Após isso, passa a ser perseguido pelo filho quando tenta aplicar mais um golpe, e acaba atirando-o do 8º andar, deixando-o paraplégico. É levado para ilha por Ben, para ser o “teste” de Locke quando este decide de juntar aos Outros. É morto por Sawyer.

Filosofia: Anthony Ashley-Cooper, político inglês do século XVII, foi uma espécie de pai adotivo e mentor do filósofo John Locke, ajudando-o a elaborar a sua filosofia. Acredita-se que foi salvo por Locke de uma infecção no fígado.

Correlação: Óbvias. A grande diferença, claro, é que ambos os filósofos mantiveram uma relação saudável até o final de suas vidas.




Mikhail Bakunin


Lost: É um ex-soldado da extinta União Soviética, que atende a um anúncio de jornal após deixar o exército, e acaba sendo levado para a ilha. Ajuda Ben na operação que mata todos os membros da Iniciativa DHARMA com um gás letal e, após isso, fica responsável pela Chama, a estação de comunicação da ilha. É ele quem recolhe todas as fichas pessoas de cada passageiro do vôo da Oceanic. Morre numa missão, ao explodir em suas próprias mãos uma granada, acontecimento que irá acabar com a morte de Charlie.

Filosofia: Mikhail Bakunin, pensador do século XIX, é o pai do anarquismo político. Era de uma família muito rica, e decidiu largar toda a fortuna para lutar pelos seus ideais. Não acreditava em Deus e nem na liberdade humana. Foi um forte crítico de Marx, pois afirmava que se o proletariado subisse ao poder, viraria uma ditadura do proletário, visto que o poder iria corrompê-los.

Correlação: Nenhuma, pelo menos até onde posso enxergar. O personagem, apesar de escolher viver solitário, é muito leal aos Outros, e seria inadmissível ao filósofo russo a submissão à qualquer tipo de poder político.





Edmund Burke


Lost: Ex-marido de Juliet, era chefe dela no Laboratório de Pesquisas Médicas da Universidade Central de Miami‎. Nas poucas vezes que aparece, se mostra bastante petulante e ainda com poder de controlar sua ex-esposa. Morre, atropelado por um ônibus, quando tentava convencer Juliet à contar para o mundo o sucesso que obteve no tratamento experimental que fez sua irmã, com câncer, ficar grávida.

Filosofia: Edmund Burke, advogado e político irlandês do século XVIII, é um dos fundadores do conservadorismo anglo-americano. Defendeu a democracia representativa, e criticou a Revolução Francesa, ao passo que apoiou a Americana. Também criticou bastante a política inglesa na Índia. Era liberalista e contratualista.

Correlação: Como o personagem praticamente não aparece na série, fica difícil fazer qualquer tipo de ligação entre ambos.

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Psicografando Nietzsche

O ANTICRISTO – FRIEDRICH NIETZSCHE

PREFÁCIO COMEMORATIVO DE CENTO E VINTE ANOS


Este livro destina-se aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo, até porque chegamos a tal ponto que se algum indivíduo alcançar a liberdade de espírito que almejo nesta obra, simplesmente enlouquecerá ou aclamará suicídio, principalmente neste inferno que se tornou a civilização.

Vejo daqui, das profundezas do Hades, a criatura mesquinha que se chama homem. Em vida eu acreditava que chegaria o dia em que este ser poderia superar-se, dando origem a uma nova raça, onde os ídolos poderiam ser derrubados e que seriam esquecidas todas as pretensões de se chegar à verdade. Contudo, admito que minhas perspectivas foram demasiadamente idealistas (isso dói mais em mim do que em vocês, meus caros leitores). O homem contemporâneo ainda sonha com a fórmula que explica todo o Universo, manipula melancias quadradas em laboratórios e até criou uma igreja para cultuar o Maradona. Parece que Deus morreu e colocaram o Barack Obama no lugar!

A moral de rebanho cristã foi trocada pela moral de plástico da televisão, onde os heróis não possuem mais idéias e sim grandes peitos, bundas, muito dinheiro e nenhum bigodão. Os novos heróis não são mais Zaratustra, Napoleão ou o Übermensch e sim os Big Brothers do Pedro Bial. A música dionisíaca foi trocada pelas danças afrodisíacas de nádegas siliconadas e requebrantes. O que nos mostra que a decadência cultural nunca foi tão preocupante.

Isso sem contar que quase tudo que eu escrevi foi avacalhado, pois deram um jeito de deturpar e ganhar dinheiro em cima: a vontade de potência virou lema do nazismo, me transformaram em místico (inclusive muitos afirmam que eu acreditava em extraterrestres e na reencarnação), em uma obra de ficção fui até tratado de dor de cotovelo por um psicanalista! Só faltou dizer que me converti ao socialismo-cristão no leito de morte.

Infelizmente os homens não conseguiram interpretar minha mensagem, os meus leitores, meus verdadeiros leitores predestinados ainda não nasceram, ou melhor, não evoluíram (isso cabe à Hitler, o macaco de Zaratustra!). O homem precisa ser superado, quem sabe pelos cavalos, àqueles que prezo tanto amor. É necessário ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...

Friedrich Nietzsche - Quinto círculo do Inferno

Psicografado pelo médium Felipe Camargo.